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  • Sobre a virtude da não originalidade: em defesa do derivado

    Sobre a virtude da não originalidade: em defesa do derivado

    Na cacofonia contemporânea do discurso cultural, um espectro peculiar assombra os corredores da criatividade: o fantasma da não originalidade. À medida que nos aproximamos de uma nova era, anunciada pelo advento da IA ​​generativa, chegou a hora de abandonar noções antiquadas de originalidade e abraçar a beleza sublime da derivação.

    O tumulto atual sobre a IA generativa e a lei de direitos autorais serve como um terreno fértil para esse discurso. Denunciar essas criações de IA como não originais é perder de vista a perspectiva geral por prender-se muito aos detalhes. Pois o que é a não originalidade senão a forma mais sincera de bajulação, um tributo ao gênio coletivo da humanidade?

    Há muito tempo veneramos a noção do artista “original”, o gênio solitário que evoca criações ex nihilo. No entanto, isso é um mito, uma fabricação fantasiosa que murcha sob escrutínio. Não nos iludamos: todo artista é um coletor de fragmentos de ideias, estilos e influências. Somos todos, em essência, algoritmos sofisticados, treinados nos ricos dados da cultura humana, sintetizando e regurgitando com um verniz de novidade.

    Considere os bardos de antigamente, que teciam contos não do éter, mas da rica tapeçaria do folclore. Ou os artistas renascentistas, cujas obras-primas nasceram de um diálogo fervoroso com seus predecessores. Na literatura, música e cinema, as maiores obras são frequentemente aquelas que habilmente recombinam elementos familiares em novas configurações. Esta, afinal, é a essência da criatividade: não a criação de algo do nada, mas a reimaginação de algo composto de todas as fontes da qual bebemos.

    A ironia do furor atual sobre a arte gerada por IA é que ela reflete o próprio processo da criatividade humana. Essas IAs são alimentadas com vastos bancos de dados da produção humana, digerindo e assimilando a obra coletiva da nossa espécie. Nisso, elas não são diferentes de nós. Desde a infância, somos bombardeados com informações sensoriais, narrativas, motivos e estilos. Nossas chamadas ideias originais são apenas recombinações desses elementos, filtradas pelo prisma único da experiência individual.

    Para aqueles que condenam a IA como a sentença de morte da originalidade, eu digo: olhem no espelho. Você também não é um algoritmo, embora biológico? Seus pensamentos e criações, não importa o quão novos pareçam, são construídos sobre as fundações estabelecidas por inúmeros outros. Em cada nota musical, cada pincelada, cada palavra escrita, ecoa o coro da humanidade.

    Isso não quer dizer que todas as criações são iguais. Há um abismo entre o pastiche pedestre e a síntese transcendente. Mas não vamos confundir originalidade com valor. Uma obra pode ser derivada, mas profunda, familiar, mas nova. É a execução, a sutileza com que esses elementos são combinados, que separa o mundano do sublime.

    Além disso, a fetichização da originalidade sufoca a criatividade, colocando pressão indevida sobre os artistas para reinventar a roda. Nessa busca incansável pelo novo, corremos o risco de ignorar a beleza do familiar, o conforto do conhecido. Há uma certa graça em reconhecer nossa dívida com o passado, em reconhecer que somos apenas elos em uma cadeia infinita de transmissão cultural.

    Ao abraçar a falta de originalidade, nos abrimos para uma compreensão mais rica e matizada da criatividade. Reconhecemos a natureza coletiva da arte, a fonte comunitária da qual todos os criadores extraem. Celebramos a intertextualidade da cultura, as inúmeras maneiras pelas quais as obras falam e informam umas às outras.

    Sob essa luz, a IA generativa pode ser vista não como uma ameaça à criatividade, mas como sua apoteose. Essas máquinas, com sua capacidade de assimilar e recombinar em uma escala inimaginável para a mente humana, representam o ápice de nosso esforço criativo coletivo. Elas são a prole de nosso genoma cultural, o próximo passo na evolução da arte.

    À medida que avançamos para este admirável mundo novo, vamos deixar de lado nossos medos da falta de originalidade. Em vez disso, vamos nos deleitar na rica tapeçaria da criação humana, na dança sem fim da influência e inspiração. Pois, no final, estamos todos de pé sobre os ombros de gigantes, alcançando cada vez mais alto a expansão ilimitada da possibilidade.

  • Rat Park

    Cheguei atrasado na consulta e Bruce já me aguardava com a caixa de lenços de papel na mesa de centro. Ele havia adotado um felino, que estava morando do lado de fora do consultório durante uma semana e finalmente o convenceu a abrir a porta antes que os catadores de papel o devorassem, com todas as justificativas possíveis. Bruce não sabia, mas tenho um irmão que coleta materiais recicláveis na rua e é viciado em crack há 7 anos, por isso demorei um pouco para perdoá-lo pela falta de tato com os famintos. Os felinos assim jovens tem a carne muito tenra, quase um patê depois de cozidos com alguma madeira seca encontrada nas placas de propagandas políticas nessa época eleitoral. Por outro lado essas criaturas são amáveis e espertas. Depois de aceitas em sua casa dominam completamente o ambiente e são como a criatura de Lindqvist, a garota com genitais costurados que clama pela sua ajuda com olhos suplicantes para que você destripe alguns sem teto e lhes roube o sangue em uma noite de nevasca. Mas desisti de censurar Bruce, pois já havia passado pelo mesmo sufoco por mais de uma década e ainda não havia encontrado uma saída adequada. Sentei em sua confortável poltrona enquanto lembrava que ainda lhe devia quatro consultas anteriores e retirei da mochila um frasco de papaverina. Bebi de um gole os 30ml da solução alcoólica e comecei a relatar o sonho da noite anterior, enquanto ele acariciava o felino, que parecia mais interessado em minha história:

    “Essa noite vivi novamente uma daquelas crises de abstinência recheadas de sonhos febris. Eu estava certo de ter um câncer ou a ruptura de algo em meu abdômen, talvez um saco de pus ou bílis que vagarosamente se espalhava em minha cavidade abdominal e aos poucos me causaria uma dor tão lancinante e infinita que eu nem lembraria mais da minha humanidade. Levantei e fui até o chuveiro para tomar o décimo banho quente da noite. Meu couro cabeludo já estava completamente esfolado e minha pele parecia soltar escamas. Meu intestino servia de esconderijo para uma ninhada faminta de ratos e eu esperava que a qualquer momento todos os meus órgãos fossem expelidos pelo cu em jatos contínuos, até que meu corpo sem órgãos, uma casca vazia, se tornasse bem mais confortável, mais fácil de lidar. Empoleirado no vaso sanitário, gemendo de dor, eu suplicava por uma solução, talvez uma recriação. Então senti uma cãibra forte no pescoço que virou para trás e meu braço pareceu se fundir entre minhas escápulas… eu estava me tornando um invunche, havia finalmente encontrado minha função no mundo com a ajuda da brujería. Abri os olhos e voltei para a cama sem dar descarga, a cabeça pesada de sono enquanto invejava minha parceira, que navegava entre os lençóis. A noite não me dava muitas opções, pois o mundo lá fora era uma prisão tão ampla quanto meu corpo. Um parque para ratos, era o que eu precisava, um maldito parque onde eu recusaria a água com morfina para me concentrar nos outros prazeres.”

    Depois de relatar esse prelúdio, esqueci completamente meus sonhos. No ápice, quando eu já havia conquistado o olhar interessado de Bruce, que se denunciava com um tufo de pelos brancos que caia de sua boca ensanguentada e flutuava levemente pela sala, dançando no ritmo do ar condicionado. Ele me olhava impaciente, com as orelhas em pé, suplicando pelo restante da história, pelo ápice, pelos sonhos que eu lhe serviria como sobremesa depois do festin. Me recostei na cadeira, tentando me recompor. Aquele momento não era novo e sempre consegui me esquivar. Era como uma caçada: sempre que eu tinha a presa na mira, largava o rifle de lado e tratava de espantá-la, para depois de alguns anos escolher um novo alvo, trabalhar nele e novamente desistir. Mas essa artimanha não estava mais funcionando e eu começava a perder meu brilho como caçador. Logo eu não teria mais a capacidade de fabricar iscas que imitassem com perfeição os insetos nativos, pois minhas mãos começariam a tremer e outros especialistas tomariam meu lugar. Foi uma reflexão rápida, para tomar folego e continuar meu relato:

    “Naquela noite eu consegui finalmente dormir, pelo menos durante alguns minutos. Não vou ficar repetindo que meu corpo inteiro doía, por dentro e por fora, mas era um bom motivo para não conseguir adormecer. O outro era uma ereção poderosa que me acompanhava naquele momento de enforcamento, provavelmente uma referência indireta à Trilogia da Noite Vermelha, que eu tinha apenas duas semanas para terminar. Meu coração estava acelerado e então resolvi tomar mais um comprimido de clonidina, sem me preocupar com os efeitos colaterais. Junto com 80 gotas de clonazepam e anti-inflamatórios não esteroides, parecia o cocktail perfeito para uma boa noite de sono. A parte ruim da dose alta de clonazepam é que não consigo sonhar, mas as coisas não funcionaram como esperado. Na manhã seguinte minha mulher saiu de viagem sem me acordar, decidindo que eu precisava descansar. Continuei dormindo durante as próximas 48 horas seguintes e poderia ter sofrido uma depressão respiratória ou até entrado em coma. Quando acordei estava completamente desorientado, sem saber onde exatamente estava ou que dia da semana era. Aquele salto espaço-temporal me empolgou e me senti estimulado a tentar saltar da sacada do oitavo andar. Me parecia uma decisão muito lógica sair voando naquele momento e não havia ninguém em casa para me impedir. Provavelmente eu havia perdido o pique para a caçada e havia me tornado apenas um cérebro com uma medula espinhal pendurada, flutuando pela sala.”

    Bruce sorriu para mim, com seus caninos ainda ensanguentados. Parecia conseguir me ver no meio dos arbustos. Ajustei a mira e puxei o gatilho. Pensei ter ouvido seu crânio sendo atravessado pelo projétil, nada mais. Nem uma reclamação, nem uma lamuria, apenas um corpo morto no chão aguardando minha chegada. Coloquei o rifle no ombro e comecei a descer o morro com a faca na mão. Seria uma noite longa e fria, provavelmente com chuva de meteoros. Eu já tinha comida, mas precisava encontrar abrigo.

  • Oficina de Colagem na Casa Caderno

    Sempre fui muito preocupado com lembranças, rastros e reminiscencias. Esta é minha nova tentativa de criar um espaço agradável para reunir minha passagem por esta iteração.

    Ontem foi dia de oficina aqui na Casa Caderno, uma joint-venture da Corrupiola em parceria com o Selo Patifaria, da Pati Peccin.